Herbarium – Estudos de Etnofarmacobotânica     Maria Theresa Lemos de Arruda Camargo

Estudo Etnofarmacobotânico de Alpinia zerumbet, Zingiberaceae, empregada na medicina popular e em rituais afro-brasileiros

O presente trabalho visa um estudo Etnofarmacobotânico de Alpinia zerumbet, geralmente citada na literatura científica com o binômio Alpinia speciosa, espécie conhecida no Brasil por colônia, empregada na medicina popular e em rituais religiosos afro-brasileiros.  Tem em vista, ainda, analisar as relações existentes entre os princípios ativos, as atividades biológicas apontados na literatura científica e os usos nas práticas médicas populares nos ambientes propostos pela pesquisa.

A espécie Alpinia zerumbet, desperta no pesquisador voltado à Etnofarmacobotânica, um interesse especial devido ao seu freqüente uso em rituais afro-brasileiros e na medicina popular, cujos papéis ai desempenhados se aproximam daqueles representados por outras espécies de Alpinia usadas na Europa e na Ásia. Em virtude dos poucos estudos existentes sobre a Alpinia zerumbet , optou-se pela inclusão de outras espécies já estudadas que permitiram uma análise comparativa, a partir da idéia de que haja semelhança quanto as atividades biológicas decorrentes dos princípios ativos e os usos da colônia na medicina popular e em rituais afro-brasileiros. Para efeito comparativo foram incluídas as seguintes espécies: A. nutans, A. galanga, A. officinarum, A.oxyphylum e A.katsumadai, a espécie usada na China. A colônia foi trazida para o Brasil no século XIX para o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde recebeu o nome de flor-da-redenção e bastão-do-imperador, o qual, segundo se admite, deve-se ao fato de terem sido usadas as flores dessa planta para presentear a princesa Isabel, logo após ter assinado a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.

O gênero Alpinia é originária do Oriente, introduzida na Europa onde foi utilizada na preparação de remédios, conforme relata a literatura ao referir-se à galanga, nome pela qual era e ainda conhecida a espécie Alpinia galanga, que, segundo Chernoviz em seu Dicionário de Medicina Popular e Formulário Médico, entrava na composição de preparações estimulantes e tônicas. 

Em uma edição portuguesa de 1817, Diccionario Portuguez das plantas, arbustos, etc., que a Divina Omnipotencia creou no globo terráqueo para utilidade dos viventes, assim se refere ao verbete galanga: Raiz cheirosa, e medicinal, que vem da China, ou da Ilha Java, da qual há duas espécies, maior e menor.  A maior he grossa, sólida, pezada, e alvadia por dentro, e cuberto de huma casca, que tira a vermelho, tem o gosto picante, e algum tanto amargoso, e produz huma espécie de cana, cujas folhas são como Lírio, e a flor he branca, e sem cheiro.  A menor tem a raiz da grossura de hum dedo, corta-se em pedaços do tamanho de avelan para depois de seca mandarem para várias partes, por dentro , e por fora declina a vermelho, e he produzida de hum arbusto, que tem as folhas semelhantes à Murta, e muito mais aromática que a maior: fortifica o estomago, e cérebro, expele os ventos, resiste ao veneno, e he muito mais estimada na medicina.  Os vinagreiros a lanção no vinagre para dar mais força

Dizem que galanga menor refere-se à Alpinia officinarum.  Dentre as bebidas fermentadas usadas em Formosa e em estados malaios está o arrak javanês cujo fermento urtilizado para sua preparação emprega rizomas fragmentados de Alpinia galanga. Tal femento denomina-se ragi.

Conforme Botsaris, Alpinia katsumadai, é a espécie usada na China.

O presente trabalho, após fazer uma breve análise sobre o uso da Alpinia zerumbet, na medicina popular e nos sistemas de crenças afro-brasileiros, se detém para indagações, diante de informações relacionadas a um preparado usado em ritual de Umbanda, em São Paulo, onde a colônia se junta à malva-branca, cipó-cabeludo e jurema, visando indução ao transe.

   Material e método

O presente trabalho orientou-se pelo seguinte critério metodológico:  

·       pesquisa de campo e bibliográfica relacionada à medicina popular e a rituais afro-brasileiros em São Paulo e outros Estados;

·       coleta de material botânico para herborização, identificação e conservação em herbário de referência;

·       pesquisa bibliográfica de caráter científico para verificação de princípios ativos e atividades biológicas;

·       discussão quanto ás atividades farmacológicas e sua relação com os papéis desempenhados pela espécie em estudo nos ambientes pesquisados. 

 Resultados
Alpinia zerumbet  (pers.) B.L. Burtt. & R. M. Sm. (Alpinia speciosa K. Schum., Catimbium speciosum J.C.Wendel, Languas speciosa Merril).

Família: Zingiberacea.

Origem: Ilhas da Ásia Oriental (Almeida, 1993:148).

Nomes vulgares: paco-seroca, cuité-açu, pacova, colônia, vindicá, bastão-do-imperador, flor-da-redenção.

Colônia (Cuba)

Flor Del paraíso, paraíso, ilusion (Venezuela)

Boca de dragon (Rep. Dominicana)

Shell ginger,shell flower, giger lily, pink porcelain lily,

Philippine wax-plant (em países de língua inglesa)

Descrição

Alpinia zerumbet é planta herbácea, robusta, perene, com colunas de 2 a 3 metros de altura, lisas, verde-claras, agrupadas em touceiras.  Folhas lanceoladas oblongas, pontudas, invaginantes, verde-luzidias, de margens ciliadas de 50 a 70 cm de comprimento sobre 10 a 12 de largura.  Flores ligeiramente aromáticas, dispostas em cachos grandes, amarelo-róseas com três lobos e um grande lábio. Cápsula subglosa, de 2 cm de diâmetro, polispémica.

 Princípios ativos:

Alcalóides e fenóis livres em Alpinia nutans. Óleo essencial contendo cineol, eugenol, pineno, éter metílico, ácido cinâmico, cadineno; galangina; éter metílico de galangina; canferina; bassorina; amido; matérias mucilaginosas e resinosas em Alpinia officinarum. Alpinetina, cardamonina, cânfora. Esterosídeos flavonóides.  Sesquiterpenos, fenilalquicetonas, compostos flavônicos, resina, taninos.

  Atividades biológicas

A Alpinia galanga é usada na Índia como afrodisíaco e estimulante respiratório, principalmente em crianças.

Pesquisa para a seleção das plantas mais usadas na medicina popular do Ceará, visando a recuperação de informações para o Banco de Dados de Plantas Mdicinais da CEME, destaca a Alpinia zerumbet, dentre as classificadas como calmantes.

O extrato de Apinia zerumbet (A. speciosa) se revelou tóxico.  Assim, além de produzir alteração hepática, doses de 100 a 200 mg mataram animais em 24 a 48 horas.  Os animais ficavam imóveis e catatônicos; a administração de 25mg/kg já apresentava efeitos na movimentação (diminuição).  Apresentou, ainda, efeitos no íleo de cobaio e no duodeno do coelho que apresentou bloqueio parcial da ação da Noradrenalina.  Nos estudos clínicos com o chá das folhas de colônia, os resultados apresentaram-se significativos quanto ao seu efeito diurético.  No ensaio sobre a ação anti-inflamatória, a essência e o extrato etanólico apresentaram uma inibição do processo edematoso de 66%. E, foi identificada uma ação anticolinérgica competitiva que inibe a contração muscular, flores, folhas e rizomas são depurativas e diuréticas, anti-histérica, estomáquica e vermífuga.

O princípio tóxico dessas plantas é desconhecido, embora encontrado nas folhas, hastes e principalmente nos rizomas, assim como pouco se conhece sobre o mecanismo de ação.

Quanto à toxicidade da Alpinia zerumbet sabe-se ser desconhecida, embora espécies de Alpinia provoquem sintomas como irritação dos olhos após exposição à Alpinia galanga e A. officinarum, além de dermatites provocadas pelas espécies, que imagina-se tratar de alergia.  A Alpinia oxyphylla conhecida no Japão por yakuchi, onde é usada no tratamento de problemas gastrintestinais.

Com relação à  A. zerumbet, esta produziu depressão do sistema nervoso central e, em experimentações em animais, revelou-se tóxica. Assim, além de produzir alteração hepática, doses de 100 a 200 mg mataram animais em 24 e 48 horas. Os animais ficavam imóveis e catatônicos; a administração de 25mg já apresentava efeitos na diminuição dos movimentos. Na seleção de plantas para o Banco de Dados da CEME, a A. zerumbet está relacionada entre as calmantes.

Medicina Popular

Quanto aos usos na medicina popular do gênero Alpinia, a literatura que trata desse assunto diz ser usada para vários fins, tais como: diurética, carminativa, estomáquica, anti-emética, espasmolítica, antiiflamatória, antiofídica, anti-histérica, vermífuga, no combate ao reumatismo e como tônico geral. Porém, pesquisa de campo realizada em Ibiúna SP, revelou o uso de colônia em afecções do aparelho respiratório, além do uso do rizoma triturado que é dado a cheirar ao asmático em crise. 

Foi registrado, também o uso das flores conservadas em álcool e passadas na testa e nuca para combater dor de cabeça.

Usada como sedativa no Pará. Ainda no mesmo Estado, a colônia, também é conhecida por vindicá, é bastante utilizada entre a população de Marapanim, na forma de chá da flor para dor no coração e na forma de banho para acalmar criança e tirar dor de cabeça.

Considerada planta de poderes mágicos, visto que é usada junto com canela e alecrim para tirar maus fluidos, mau-olhado e inveja. 

Na China Meridional usa-se o rizoma da Alpinia officinarum, como amuleto para proteger crianças e animais domésticos dos maus espíritos, causadores das enfermidades.

A espécie usada na medicina chinesa é a Alpinia katsumadai, cujas partes utilizadas são o fruto e a semente. No Brasil esta espécie é substituída pela Alpinia zerumbet (A. speciosa), conhecida por colônia devido à fragrância de suas folhas e flores e morfologicamente muito semelhantes à espécie chinesa, usada na medicina popular como diurético e anti-hipertensivo, assim como os rizomas são empregados como antídoto do veneno de cobra, como digestivo, como antiespasmódico nas cólicas intestinais, como vermífugo, como anti-reumático, artrites e nas histerias.

Em Cuba, Alpinia zerumbet (A. speciosa), é empregada em afecções da pele, na forma de decóctos das folhas e flores, aplicadas externamente.  Internamente, preparadas da mesma forma se usam para combater catarros, acrescentando que as flores e rizomas têm a virtude de “dar força”.

Na República Dominicana Alpinia zerumbet (A. speciosa), é usada na forma de chá para combater a gripe, sem, contudo, ser mencionada a parte utilizada. Na Espanha, são usados os rizomas em dismenorréia, na prevenção de vômitos e em mastigatórios nas odontalgias.

  Usos nos rituais afro-brasileiros

Alpinia zerumbet (A. speciosa), está relacionada entre as dez plantas mais usadas nos rituais afro-brasileiros do Recife.

Em Belém do Pará, Alpinia zerumbet (A. speciosa), está presente no banho de lavagem e de descarga, usado pelos filhos(as)-de-santo, os membros da Família do Rei Salomão, conforme é assim conhecido no sistema de crenças do Nagô, da Jurema e variantes.

Quando de minha visita em 2000 ao pai-de-santo Afonso Gomes Aguiar, do Ilê São João Batista, Terreiro africano São João Batista, no Recife, fui informada pelo pai-de-santo que a flor e folha de colônia colocada em álcool é dado a cheirar a quem tem dor de cabeça.

Conforme o informante Feliciano, da mesma casa de culto, era recomendado o banho feito com as folhas da colônia e folhas de eucalipto, para curar doenças do aparelho respiratório. Pesquisa realizada no terreiro de umbanda Templo Mãe Guacira, em SP, em 2001, com a mãe-de-santo conhecida por tia Dag, o chá das folhas de colônia altera os estágios da consciência.  Segundo a mãe-de-santo, usa-se oferecer a infusão das folhas ao médium quando este se encontra com a irradiação alterada.  Neste caso, irradiação é quando a entidade está próxima, mas não incorpora e o médium apresenta taquicardia e suor nas mãos.  Quando é grande a resistência à incorporação da entidade, usa-se dar um preparado que se faz com folhas de colônia misturadas com folhas de jurema-preta (Mimosa hostilis), cipó-cabeludo (Mikania hursutissima) e malva-branca (Sida cordifolia).

  Discussão

A pesquisa permitiu verificar que a espécie Alpinia zerumbet parece ser a única do gênero usada no Brasil, visto que nem em pesquisa de campo e nem na bibliografia pesquisada, há referência às outras espécies.

Através da pesquisa de campo realizada em SP e em outros Estados e da bibliografia consultada, observou-se que a maior freqüência quanto ao uso da colônia estava relacionada a problemas do aparelho respiratório, dores de cabeça e como calmante.

Informantes do Pernambuco, de Sergipe, do Pará e de São Paulo, apontaram o emprego da colônia como sedativo e, ainda, o uso da flor conservada em álcool, passado na nuca e testa para curar dor de cabeça, além do costume de triturar o rizoma e dar a cheirar a asmáticos em crise.

Estudos científicos sobre a Alpinia galanga, indicam sua ação como estimulante respiratório, conforme citado anteriormente, o que vem a concordar com a indicação na medicina popular no Brasil, com relação à Alpinia zerumbet.

Embora a bibliografia consultada faça pouca referência aos constituintes químicos da espécie usada no Brasil, ou seja, a colônia, imagina-se serem os mesmos semelhantes àqueles presentes nas outras espécies referidas neste trabalho, assim como as atividades biológicas serem também semelhantes.

Em rituais de cura em ambientes religiosos afro-brasileiros, as folhas de colônia, assim como o rizoma triturado, são empregados para curar doenças do aparelho respiratório, tal como já foi mencionado.

As referências que fazem alguns autores à ação anti-histérica, parece concordar com o uso da colônia em certas situações ritualísticas dos sistemas de crenças afro-brasileiros, em que a agitação dos médiuns impede a ocorrência do transe, o qual seria o estado alterado de consciência exigido para o desenvolvimento dos trabalhos religiosos, os quais visam a incorporação de entidades e que, para tal, o estado de tranqüilidade é necessário.  São nestas situações que se emprega a colônia, planta entendida nestes ambientes como calmante.

Quando é grande a resistência ao estado de transe, usa-se incluir outras plantas que se somam à colônia, tais como a jurema, cipó-cabeludo e mal-branca, mencionados anteriormente, admitindo-se obter um preparado mais forte.

A princípio seria possível imaginar que o efeito de tal preparado com as plantas acima mencionadas, pudesse ser atribuído à jurema (Mimosa hostilis), visto que esta planta apresenta o potente alcalóide N.N-dimetiltriptamina, de ação alucinógena, embora se saiba que os derivados triptamínicos são inativos por via oral.  Neste caso, pode-se admitir o efeito moral, uma vez que os adeptos das religiões afro-brasileiras vêm nessa planta poderes mágicos irrefutáveis. Ou, então, a possibilidade da presença de alcalóide na colônia, tal como ocorre com a Alpinia nutans, não identificado, segundo a bibliografia consultada, que possa ativar por via oral, o alcalóide  presente na jurema.  Neste caso, há precedente relacionado às beberragens indígenas com a presença de plantas alcaloídicas juntamente com espécies que contêm derivados triptaminicos.  Este fato já foi mencionado quando se tratou de preparados onde entravam plantas que contém alcalóides beta-carbolinas (harmalina, harmina e tetrahidroharmina) e plantas com derivados triptamínicos, acrescentado que esses alcalóides são inibidores de enzimas,  tornando os derivados triptamínicos ativos por via oral.  Neste sentido, podemos considerar que o preparado a base de Alpinia, apontado na umbanda de SP, à qual são adicionadas as espécies Sida cordifolia, Mikania hirsudissima e Mimosa hostilis, possa ter seu efeito potencializado em virtude do alcalóide efedrina presente em Sida cordifolia, registrado por Gibbs em sua Chemiotaxonomy of plants.  Embora a bibliografia consultada não tenha apontado a presença de alcalóides na espécie Alpinia zerumbet, não seria impossível essa ocorrência, visto ter sido registrado na espécie Alpinia nutans.  Fica, então, a questão: tais alcalóides não poderiam estar agindo da mesma forma que aqueles apontados por Elisabetsky, fazendo com que o preparado fique mais atuante, com a presença da Mimosa hostilis?

Certamente, estudos complementares à partir do que já se conhece sobre a espécie botânica proposta para o presente estudo, devem ser encetados, de forma a ser possível compreender e explicar melhor os procedimentos das práticas médicas populares que a envolvem.

http://www.aguaforte.com/herbarium/Alpinia.html   13.800 z.